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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Elas também jogam

Elizangela De Bona

Meninas mostram que o preconceito é só mais um adversário a ser driblado

As mulheres estão conquistando cada vez mais espaço, e com o futebol não poderia ser diferente. A modalidade vem crescendo e ganhando destaque. Em Braço do Norte, aproximadamente 70 meninas representam o município por meio do Conselho Municipal de Esportes (CME). As meninas são divididas em cinco categorias: sub 11, sub 14, sub 16, sub 18 e adulto.

De acordo com o técnico da CME, Edenílson Valmor Hebert, o futsal feminino começou por acaso no município. "Em 2005, quando eu dava aula em uma escola do bairro União, tinha quatro meninas que jogavam bem e, como Braço do Norte não tinha time feminino, elas jogavam por Rio Fortuna. Pensei então que se já tinha quatro, com mais uma poderia eu formar um time. Liguei para o diretor de esportes da época e perguntei se poderia inscrever as meninas na Olimpíada Estudantil de Santa Catarina (Olesc) e ele apoiou. Desde então o feminino tem tido destaque nas competições das quais participou", explica.

No começo, as meninas eram selecionadas por meio de indicações. Atualmente a seleção é feita na escolinha de futebol do próprio município. Lia Schlickmann de 17 anos é uma das representantes da cidade. A jovem começou a jogar com 10 anos no moleque bom de bola e afirma que o futebol é a sua paixão. "Não consigo viver sem jogar, o futebol é minha alegria, uma das coisas que mais me faz feliz".
Foto: Lia Schlickmann
Na cidade vizinha, São Ludgero, o futsal feminino iniciou suas atividades em 2008. Segundo o técnico de futsal Luiz Carlos Fracaro, aproximadamente 45 meninas treinam para representar a cidade. As meninas são dividas em duas categorias: sub 13, com 30 meninas e adultas, com 15 atletas. Entre elas está a auxiliar de analista de qualidade Daniela de Araújo, de 21 anos. Daniela conta que joga desde pequena e que o futebol representa muito em sua vida. "Desde que me conheço por gente jogo futebol. É como uma paixão que nunca acaba. Futebol para mim é disciplina, por meio do esporte aprendemos como trabalhar em equipe e aprendemos também a respeitar as pessoas. Se eu tivesse oportunidade gostaria de viver de futebol”.

Conforme Hebert, as meninas demonstram mais dedicação, o que torna o trabalho com o futsal femino mais fácil. "Elas são mais unidas, mais compromissadas e mais dedicadas que os meninos, o que facilita o trabalho. Claro que é preciso ter sensibilidade, mas se eu tivesse que escolher entre o futsal feminino e o masculino, escolheria o feminino", afirma.

Paixão que começa cedo

A paixão pelo futebol começa cedo para algumas meninas. Joice Camilo, de 12 anos, começou a jogar em 2010, e apesar da resistência inicial do pai, pretende continuar. "Me interessei pelo futsal na escola, e entrei na escolinha por indicação de uma amiga. No começo meu pai não queria que eu jogasse, com medo de que eu me machucasse, mas agora ele se acostumou. "Eu mal sabia chutar uma bola quando entrei, acho que já evolui bastante e quero continuar".

Com 10 anos, Isadora Lessa diz que seus pais, que também jogam, sempre a apoiaram, mas que não teria problemas em enfrentar dificuldades. "Gosto muito de jogar e dificuldades sempre tem que enfrentar, seja lá o que você queira fazer, a gente tem que lutar pelo que a gente gosta", afirma.

Fabíola Rinaldi, atualmente com 15 anos, começou a jogar aos 8, e sonha em jogar profissionalmente. "Meus pais me apoiam bastante, admiro muito a Marta e queria muito poder um dia jogar profissionalmente".

Um drible nas adversidades
Apesar do crescimento e de ser cada vez mais comum, ainda há quem acredite que futebol não é coisa de menina. "Eu estava na aula um dia e um professor foi convidar quem tivesse interesse para jogar futebol depois da aula, quando eu disse que queria participar ele ficou me olhando desconfiado, constrangido, acabei desistindo", conta Lia Schlickmann.

"A gente sempre escuta alguém dizendo que futebol não é coisa para meninas, dizendo coisas como 'sai daí mané macho'. Sinto que muitas pessoas têm preconceito. Respeito a opinião das pessoas, mas preconceito é ignorância", afirma Daniela de Araújo.

A atleta de São Ludgero, Sulamita dos Santos Bento, conta que já teve problemas dentro de casa por jogar futsal, o que atualmente não existe mais. "Meu marido não gostava que eu jogasse, ficava chateado quando eu saia para jogar, só que com o tempo ele foi conhecendo e se acostumando com a ideia. Hoje ele é o treinador do time em que jogo, me acompanha sempre, jogo até mais animada", explica.

Para essas meninas, o preconceito é só mais uma barreira a ser ultrapassada. "Existe preconceito sim, claro que muito menos do que antes, mas existe. Espero que isso acabe. Nós, mulheres e amantes do futebol, torcemos por isso", afirma Lia. 

*Matéria publicada em agosto de 2011, na revista Meu SUL.
* Os dados relacionados ao futsal de Braço do Norte e São Ludgero, assim como as idades das atletas citadas estão desatualizados.