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terça-feira, 26 de maio de 2015

Parto natural: o primeiro ato de amor

O dia 20 de agosto jamais será esquecido pela enfermeira Caroline Scheuer. As dores vieram pela manhã. Às 12h, contrações fortes e às 17h20min, Kaila veio ao mundo. O parto foi totalmente natural e na água. “Ela veio de forma maravilhosa. Meu marido foi quem a pegou primeiro e logo depois a entregou em meus braços. Fico emocionada só de lembrar. Não há palavras coerentes para descrever esse momento, creio que somente passando para saber. Sei que quando a vi pela primeira vez eu experimentei o que é amor incondicional, foi um momento de alegria e realização extrema”, conta Caroline.

Momento antes do nascimento da Kaila. 
Foto: Carol Dias.
Emoção semelhante foi a da estudante de enfermagem Stacy Gerlach. Por meio de um parto normal de cócoras, deu à luz a Heitor. “Foi maravilhoso. O momento mais lindo da minha vida”. Ambas escolheram dar à luz do modo mais natural possível. Sem intervenções como anestesias ou indução. No parto natural, o médico simplesmente acompanha o parto. O ritmo e o tempo da mulher e do bebê são respeitados. “No parto humanizado a mulher é a protagonista do seu parto. Ela é quem manda, ela é quem faz o parto”, explica a ginecologista e obstetra Roxana Knobel, médica de Caroline e Stacy. Ambas também optaram pelo acompanhamento de uma doula, profissional que acompanha a gestante antes, durante e depois do parto, dando suporte afetivo, físico e emocional.

Heitor nos braços da mamãe Stacy sendo tietado pelo papai Rogério.
Foto: Arquivo pessoal.
Nessa reportagem especial, você vai conhecer os benefícios do parto natural e ainda vai saber como profissionais como a doula podem contribuir para que o momento seja ainda mais inesquecível.

Título 2 - Do “desaparecimento” das parteiras aos altos índices de cesáreas

Foi no início do século passado que o desenvolvimento do parto “industrializado” se tornou evidente. Aos poucos iam saindo as parteiras e iam entrando os médicos. Em 1902, na Grã-Bretanha, a Lei das Parteiras estabeleceu vínculos oficiais entre a profissão da parteira e a profissão médica. Mas os motivos eram econômicos. As parteiras limitavam o volume de negócios para os médicos.

Autor de vários livros e inventor de muitas ferramentas obstetrícias, Joseph De Lee, renomado professor de obstetrícia norte-americano, teve um papel fundamental no desenvolvimento do parto industrializado. Em um artigo intitulado “O uso profilático do fórceps”, feito em 1920, ele recomendou o uso rotineiro do instrumento e a episiotomia - incisão efetuada para ampliar o canal de parto e prevenir que ocorra um rasgamento irregular durante a passagem do bebê - em todos os partos. O tratado De Lee teve tanta influência nos Estados Unidos que na década de 30 a obstetrícia profilática já tinha se tornado norma.

Atualmente, mais da metade dos bebês brasileiros nascem por meio de cesarianas. Índice bem acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 15%. No país, 52% dos bebês vêm ao mundo por meio da cirurgia.

Título 3 - O parto natural e os seus benefícios

Roxana Knobel atua como médica há 20 anos e sempre apoiou o parto normal vaginal. O contato com a concepção do parto humanizado se deu há aproximadamente 13 anos. Desde então, a obstetra tem reaprendido a intervir o menos possível nos partos. “Toda intervenção tem um preço, e, geralmente, leva a outras intervenções”, afirma.
“Toda intervenção no processo natural do nascimento deve ter uma boa justificativa, baseada em pesquisas científicas bem feitas”. (Roxana Knobel) 

De acordo com a especialista, no parto humanizado a mulher é a protagonista. “A equipe de assistência está lá para ajudar, apoiar e intervir em caso de necessidade, mas é a mulher quem manda”, explica. Além de dar liberdade à futura mamãe, o parto natural também é mais seguro e diminui a possibilidade de complicações para a mãe e o bebê. Além disso, possibilita o contato imediato da criança com a mãe, o que facilita o vínculo e o aleitamento. Outro benefício é a possibilidade de proximidade do pai durante o parto.

Conforme a obstetra, optar por um parto humanizado é também mais seguro. “Uma cesariana implica em mais riscos para a mãe e para o bebê. Risco de hemorragia, de ficar na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e de usar antibióticos. Optar por um parto humanizado, onde a fisiologia do processo e o tempo são respeitados, é o ideal”.

Título 4 - Quero parto natural, o que faço?


Segundo a obstetra Roxana Knobel, por ser a cesariana um processo mais prático, não são muitos os médicos que se dispõem a realizarem partos humanizados. Deixar de lado o que aprendeu e sempre fez e mudar anos de prática são as causas da dificuldade encontrada por algumas mulheres na hora de encontrar o profissional adequado para o parto que deseja.

O jeito é ter paciência e pesquisar, como fez a estudante de enfermagem Stacy. “Pesquisei muito a respeito. A primeira obstetra que consultei nem me perguntou que tipo de parto eu queria, e quando eu falei sobre parto normal ela se limitou a dizer que era muito cedo para que eu pensasse naquilo. A partir daí comecei a procurar obstetras com baixa taxa de cesáreas, o que é procurar agulha no palheiro”, conta. Ao entrar no blog de sua doula, Stacy encontrou uma referência ao nome de Roxana e após ouvir um comentário de que a médica mais parecia uma parteira, tomou sua decisão.

Segundo Roxana, há restrições quanto ao parto humanizado, mas são poucas, por exemplo, se a placenta estiver na frente do bebê no canal de parto. “A maioria das indicações de cesariana no Brasil não são indicações absolutas e as mulheres poderiam ter parto natural”, afirma. Cordão umbilical enrolado no pescoço também não é motivo para cesárea conforme a especialista.

No parto natural, a mulher fica na posição que considera confortável. A água, de acordo com a obstetra, ajuda a relaxar e diminui a dor, além de ajudar a relaxar o períneo na hora do bebê sair, mas algumas mulheres não querem ou não podem ter o parto na banheira, diante disso, escolhem se preferem de cócoras, ajoelhadas, deitadas ou abraçadas ao marido.


Os pais que optarem por um parto humanizado devem se informar e procurar uma equipe que atue em partos assim perto da sua cidade. “Aconselho as pessoas interessadas a se informarem muito sobre o que desejam e o que podem conseguir. Grupos de apoio ao parto normal e grupos virtuais podem ajudar a encontrar a melhor forma de conseguir um parto humanizado”, orienta a especialista.

Título 5 - As doulas e o seu importante papel

As doulas fornecem um apoio essencial para os casais durante a gestação, no parto e nos cuidados iniciais com o bebê. Estudos mostram que a presença de uma doula aumenta a satisfação com o parto e a chance de parto vaginal espontâneo, sem necessidade de instrumentos ou até mesmo a cesárea. “A doula só ajuda durante o trabalho de parto. Deixa a mulher mais confiante e segura e a incentiva a passar pelo processo do parto, que pode ser longo e dolorido”, relata a obstetra Roxana Knobel.

Doula há dois anos, Cristina Melo se dedica exclusivamente aos partos. Formada no Grupo de Apoio a Maternidade Ativa (GAMA), de São Paulo, também é técnica em enfermagem e já acompanhou cerca de 80 partos. “É incrível. Você cria um vínculo, se torna quase da família e acaba conhecendo os medos e desejos da gestante melhor do que ninguém. Na hora do parto você sente que precisa fazer tudo o que está ao seu alcance para que a mulher tenha a experiência que tanto deseja. Ver esses sonhos se tornando realidade e poder estar presente nesses momentos é um privilégio”, afirma Cristina.

Privilégio para Cristina e segurança para Stacy, que teve sua gestação acompanhada pela doula. “Antes mesmo de o Heitor nascer ela estava sempre à disposição para tirar dúvidas, orientar. Conversávamos muito em nossos encontros e isso formou um elo de confiança. Quando chegou a hora eu estava tranquila. Ela ajudou inclusive o meu marido. Fez com que ele perdesse o medo de participar ativamente, o que tornou o momento maravilhoso”, lembra.

A doula Cristina, a mamãe Caroline e o papai Bruno, o primeiro a segurar Kaila.
Fotos: Carol Dias. 
Caroline, que também teve Cristina como sua doula, é só elogios. “É a voz quando a mulher precisa ouvir, é a mão que conforta. Com certeza meu parto não teria todo o sucesso que teve se eu não tivesse ao meu lado uma doula”.

Os benefícios de ter uma doula

Estudos mostram que ter uma doula pode:

·         Diminuir em 50% as taxas de cesárea
·         Diminuir em 20% a duração do trabalho de parto
·         Diminuir em 60% os pedidos de anestesia
·         Diminuir em 40% o uso da oxitocina (hormônio geralmente utilizado para começar ou acelerar o trabalho de parto)
·         Diminuir em 40% o uso de fórceps.

*Texto: Elizangela De Bona.
*Fotos: Arquivo pessoal e Carol Dias.
*Com informações dos sites Doulas e Parto pelo mundo.
*Matéria publicada em novembro de 2012, na revista Meu SUL.
*Algumas informações podem estar desatualizadas.