Elizangela De Bona
A
existência ou não de vida após a morte sempre gera discussão. Há os que
acreditam e os que nem cogitam a hipótese. Há também os que preferem nem pensar
no assunto. A verdade é que só encontraremos resposta para essa pergunta no dia
em que partirmos, mas tentar entender como funcionam as coisas, inclusive a
morte, é típico das pessoas.
As religiões,
norteadoras de grande parte da sociedade, apontam caminhos, respondem, de
acordo com a sua doutrina, a esse, e outros tantos questionamentos. Para onde
as pessoas vão depois de morrer? Céu e inferno existem? Há reencarnação? O que
dizem as religiões? No que elas acreditam? No que você acredita?
O que dizem as religiões?
De acordo com dados do censo
demográfico realizado em 2000 pelo IBGE, 73,8% dos brasileiros se declaram
católicos, 15,4% se dizem evangélicos e 1,3% espíritas. 9,5% se dividem entre
os que são de outra religião, 2,1%, e os que dizem não ter religião, 7,4%.
A fim de responder alguns, dos
muitos questionamentos sobre o tema, a Revista Meu SUL procurou líderes destas,
que são as religiões mais conhecidas e seguidas pelas pessoas.
Para onde as pessoas vão depois de
morrer? Céu e inferno existem?
De acordo com
a igreja católica céu e inferno existem sim. "A bíblia é bem clara, existe
um céu e um inferno. Aqueles que levarem uma vida ética, baseada nos princípios
merece um prêmio. O que andou pelo caminho do vale da morte também vai receber
pelo que semeou", afirma o padre Lenoir Steiner Becker. Segundo o padre, o
céu não seria um lugar, seria um estado de espírito, de realização plena, uma
morada espiritual junto ao pai eterno.
Para os
espíritas, conforme o presidente da União Regional Espírita da 9ª Região de Santa Catarina, Walterney Rus, céu e inferno são vivenciados constantemente.
"Quando nossa alma está verdadeiramente em paz, tranquila, com aquela
sensação peculiar de dever cumprido, já temos um esboço de céu. Do mesmo modo,
quando estamos em situações de dúvidas angustiantes, de dores atrozes, de
perdas terríveis, já estamos experimentando o inferno", afirma.
De acordo com
o espiritismo, no momento da morte, cada pessoa segue para um determinado
grupo. "Pessoas que,
encarnadas, são baderneiras, praticantes de crimes, desencarnam e agrupam-se em
regiões que nominamos como umbral, onde perambulam errantes, enquanto não caem
em si sobre suas condutas, quando então, por força desse arrependimento eficaz
são resgatadas e encaminhadas para colônias espirituais, assemelhadas a
clínicas de recuperação, casas de repouso, para fins de reestruturação de seus
projetos de vida. Da mesma forma, pessoas que dedicaram suas vidas na terra ao
exercício do bem, à prática das diretrizes evangélicas, ou mesmo ao amor
incondicional à humanidade, ao desencarnarem são recebidas por espíritos afins,
que lhes facilitam a transição e as acolhem já em residências específicas, em
colônias espirituais", explica.
Conforme o
pastor da igreja evangélica, Moisés Brasil Maciel, céu e inferno existem, mas
ainda não o vivenciamos. "Dois locais distantes, sem comunicação um com o
outro. Dois locais eternos, de sofrimento ou alegria eterna, dois destinos
baseados em nossas escolhas de hoje. A forma de vida que escolhemos, em quem e
no que cremos, determinará onde passaremos a eternidade. Ainda que para muitos
a vida em nosso mundo se assemelhe muito a um inferno, a Bíblia declara a
existência de um paraíso, local onde recomeçaremos a vida dentro dos padrões
já estabelecidos por Deus, e um lugar de tormento, eternamente distante de
Deus".
Existe vida após a morte?
"A vida após a morte se constituí
num dos princípios elementares da Doutrina Espírita, doutrina que prega não só
crença na vida após a morte, mas principalmente, que a morte é apenas um
processo de transição e que a realidade espiritual interage continuamente com a
realidade material, sendo perfeitamente natural tal interatividade, como é
natural pessoas de países diferentes interagirem sem estarem fisicamente no
mesmo lugar", declara Réus.
Para a igreja evangélica, a alma e o
espírito, continuam vivos após a morte. "Entendemos que o homem é composto
de corpo, alma e espírito, no corpo os órgãos do sentido e organismo em si, na
alma, emoções, vontade, razão e intelecto, no espírito consciência e comunhão
com Deus. Mesmo que o corpo pereça, a morte física, ainda temos algo de imaterial,
a alma e o espírito, que perdurarão após a morte do corpo", afirma o
pastor.
De acordo com o padre Lenoir Steiner
Becker, após a morte se tem vida plena. "Após a morte partimos para a
morada eterna junto a Deus Pai, vivemos uma felicidade plena".
Há reencarnação?
Para
os evangélicos não. "Não
há como juntar em uma mesma ideia reencarnação e cristianismo. Crer em reencarnação é rejeitar o sacrifício de Cristo, pois se cristo morreu uma única
vez por nossos pecados não há como viver, morrer, tornar a viver, morrer,
retornar a vida, até que sejamos purificados dos nossos delitos e erros. Não há
paralelo entre ser cristão e crer em reencarnação, haveria uma contradição com
a própria Bíblia: 'E, assim como aos
homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo, assim também
Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos,
aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação'. (Hebreus 9:27-28). Esta segunda vez, em que Cristo
aparecerá, será a sua volta, voltará, pois morreu, e ressuscitou", explica
Maciel.
De acordo com os princípios católicos, a reencarnação não
existe. "Parto do princípio daquilo que Jesus
diz na cruz ao ladrão arrependido, 'hoje mesmo estarás comigo no paraíso'. Ele
não prometeu que após o arrependimento ele fosse viver outra vida. Acreditamos
na ressurreição. Não acreditamos na reencarnação, acreditamos que Deus nos dá
uma chance, e é essa que temos agora. Por isso precisamos nos esforçar nesse
tempo para cumprirmos a nossa missão", argumenta Becker.
Já para a doutrina
espírita, a reencarnação estrutura os projetos de Deus para a humanidade.
"A
Doutrina Espírita não só crê na reencarnação como a
defende como mola mestra de todo o projeto de Deus para o nosso progresso
constante. Sem o princípio da reencarnação, fica muito difícil estruturar a
justiça de Deus, posto que uma única vida para nos por à prova, com tanta
diversidade de oportunidades e dificuldades seria como o professor que,
para um aluno permite consulta à livros e mestres, enquanto que para o
outro, além de lhe vedar consultas, ainda o obriga a
fazer a prova nu sob chuva e frio intenso, exigindo de ambos a
mesma nota. A reencarnação aponta ainda para duas
características sem as quais Deus não seria Deus: Misericórdia, traduzida pela
renovação de oportunidades para repararmos nossos erros, e, Justiça, traduzida
pela íntima relação entre nossas decisões e nossa responsabilidade sobre o
resultado dessas decisões. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória",
explica Réus.
Sinais que confortam
Para algumas pessoas, a existência de vida após a morte é um fato
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| Foto: Arquivo |
Natural de São
Paulo, Tatiana Madjarof tinha 23 anos quando perdeu a vida em acidente de
carro, no dia 4 de fevereiro de 2006. A estudante de medicina, que sonhava
fazer pós-graduação nos Estados Unidos e trabalhar voluntariamente na África,
ia à Laguna visitar uma amiga, porém foi surpreendida por um carro, vindo na
direção contrária. O carro, que fazia uma ultrapassagem irregular, bateu de
frente no carro que Tatiana dirigia e a jovem teve morte instantânea.
Sete meses
após a morte de Tatiana, sua mãe, Rosana Madjarof, convidada por sua mãe e uma
amiga, foi ao Centro Espírita Aurélio Agostinho, em Minas Gerais. Ao fim da
reunião, recebeu das mãos do médium Celso de Almeida Afonso, a primeira carta
de sua filha. "A carta era rica em detalhes, coisas que só a Tati poderia
saber. Renasci naquele dia, tive certeza de que a minha filha estava viva em
outro plano, e aquilo me confortou", afirma Rosana.
Hoje, são 27
cartas psicografadas pelo médium Celso. Segundo Rosana, as 27 cartas trazem
conforto não apenas para ela, mas também para outras mães, que não recebem
mensagem dos filhos. "Não tenho necessidade de receber mais cartas, porque
sei que a minha filha vive, ela está do meu lado, mas faço questão de voltar ao
centro e receber novas cartas pelas outras mães. Essas cartas servem de
consolo, saber que nossos filhos continuam vivos é algo maravilhoso, por meio
das cartas temos a certeza de que se continuarmos caminhando na direção do bem,
cumprindo a missão que nos foi confiada, vamos nos encontrar", explica.
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| Foto: Arquivo |
Jivago Echeli
Jung, 27 anos, cirurgião dentista, natural de Orleans, perdeu a vida no dia 7
de março de 2007, após bater de frente em outro carro no Km 311 da BR-101, em
Laguna. A mãe, Claudete Echeli Jung, também recebeu cartas psicografadas pelo
médium Celso, e se diz agraciada. "Recebi duas cartas no mesmo dia, olhava
para os lados e via várias pessoas com camisetas de filhos, e eu estava
recebendo uma mensagem do meu, me senti imensamente feliz", conta.
Quer conhecer mais a história de Tatiana? Acesse: Saudade e Adeus. Lá você também poderá ler algumas cartas psicografadas, dela e de outras pessoas. O site é administrado pela Rosana Madjarof, mãe da Tatiana.
* Matéria publicada em agosto de 2011, na revista Meu SUL.