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terça-feira, 14 de abril de 2015

Eles também dançam

Elizangela de Bona

Por meio da dança, jovens lutam contra o preconceito e provam que, em meio a sapatilhas, collant e sutileza, também existe masculinidade.

Sapatilha e collant. Acessórios que fazem parte da vida de Maurício de Souza Brillinger, de Araranguá. O estudante, de 20 anos, integrante da Companhia de Dança Núcleo Artístico Brillinger, sempre gostou de dançar e, seguindo os passos da irmã, que já dançava, começou a fazer balé clássico aos 15 anos. "O balé representa uma grande parte da minha vida. É uma arte fenomenal, além da dança em si, ensina postura e disciplina. Não consigo mais me desvincular dessa arte", afirma.
Foto: Maurício de Souza Brillinger
Apesar do crescente número de meninos que optam pelo balé, para Maurício, o preconceito ainda é muito presente. "Não é difícil ouvir piadinhas do tipo, ' ah, balé é coisa de menininha, é coisa de gay'”. Professora de balé, Heloísa Brillinger conta que já presenciou o preconceito com seus alunos. "Uma vez um menino começou a fazer aulas de balé, fez algumas apresentações e um mês depois os pais tiraram porque tinham medo de que o menino se tornasse homossexual", conta.

Mas o preconceito com os homens na dança nem sempre existiu. No início da história do balé, há cerca de 500 anos, os homens faziam os papéis masculinos e femininos, não havendo assim, a necessidade de bailarinas. Nas côrtes francesa e italiana, o papel da mulher na dança era secundário, já que as saias compridas e com armações pesadas dificultavam a participação feminina, sendo que elas, por sua condição física, não tinham condições de realizar saltos ou movimentos que exigissem agilidade com as pernas. Só em 1832, o balé La Syphide colocou uma bailarina em primeiro plano.

Foto: Eder Vieira
Professor de geografia, Eder Vieira da Costa, 23 anos, também integrante do Núcleo Artístico Brillinger, pratica balé desde os 17 anos. O jovem conta que começou a dançar por influencia de amigos, e que apesar do preconceito, não pensa em parar. "É sempre mais fácil falar do que não se conhece e poucas pessoas tem acesso a esse tipo de cultura, por isso ignoro o preconceito. Me dedico totalmente ao balé, independente das coisas que ouço", afirma. 


* Matéria publicada em agosto de 2011, na revista Meu SUL.
* A idade dos entrevistados está desatualizada. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Elas também jogam

Elizangela De Bona

Meninas mostram que o preconceito é só mais um adversário a ser driblado

As mulheres estão conquistando cada vez mais espaço, e com o futebol não poderia ser diferente. A modalidade vem crescendo e ganhando destaque. Em Braço do Norte, aproximadamente 70 meninas representam o município por meio do Conselho Municipal de Esportes (CME). As meninas são divididas em cinco categorias: sub 11, sub 14, sub 16, sub 18 e adulto.

De acordo com o técnico da CME, Edenílson Valmor Hebert, o futsal feminino começou por acaso no município. "Em 2005, quando eu dava aula em uma escola do bairro União, tinha quatro meninas que jogavam bem e, como Braço do Norte não tinha time feminino, elas jogavam por Rio Fortuna. Pensei então que se já tinha quatro, com mais uma poderia eu formar um time. Liguei para o diretor de esportes da época e perguntei se poderia inscrever as meninas na Olimpíada Estudantil de Santa Catarina (Olesc) e ele apoiou. Desde então o feminino tem tido destaque nas competições das quais participou", explica.

No começo, as meninas eram selecionadas por meio de indicações. Atualmente a seleção é feita na escolinha de futebol do próprio município. Lia Schlickmann de 17 anos é uma das representantes da cidade. A jovem começou a jogar com 10 anos no moleque bom de bola e afirma que o futebol é a sua paixão. "Não consigo viver sem jogar, o futebol é minha alegria, uma das coisas que mais me faz feliz".
Foto: Lia Schlickmann
Na cidade vizinha, São Ludgero, o futsal feminino iniciou suas atividades em 2008. Segundo o técnico de futsal Luiz Carlos Fracaro, aproximadamente 45 meninas treinam para representar a cidade. As meninas são dividas em duas categorias: sub 13, com 30 meninas e adultas, com 15 atletas. Entre elas está a auxiliar de analista de qualidade Daniela de Araújo, de 21 anos. Daniela conta que joga desde pequena e que o futebol representa muito em sua vida. "Desde que me conheço por gente jogo futebol. É como uma paixão que nunca acaba. Futebol para mim é disciplina, por meio do esporte aprendemos como trabalhar em equipe e aprendemos também a respeitar as pessoas. Se eu tivesse oportunidade gostaria de viver de futebol”.

Conforme Hebert, as meninas demonstram mais dedicação, o que torna o trabalho com o futsal femino mais fácil. "Elas são mais unidas, mais compromissadas e mais dedicadas que os meninos, o que facilita o trabalho. Claro que é preciso ter sensibilidade, mas se eu tivesse que escolher entre o futsal feminino e o masculino, escolheria o feminino", afirma.

Paixão que começa cedo

A paixão pelo futebol começa cedo para algumas meninas. Joice Camilo, de 12 anos, começou a jogar em 2010, e apesar da resistência inicial do pai, pretende continuar. "Me interessei pelo futsal na escola, e entrei na escolinha por indicação de uma amiga. No começo meu pai não queria que eu jogasse, com medo de que eu me machucasse, mas agora ele se acostumou. "Eu mal sabia chutar uma bola quando entrei, acho que já evolui bastante e quero continuar".

Com 10 anos, Isadora Lessa diz que seus pais, que também jogam, sempre a apoiaram, mas que não teria problemas em enfrentar dificuldades. "Gosto muito de jogar e dificuldades sempre tem que enfrentar, seja lá o que você queira fazer, a gente tem que lutar pelo que a gente gosta", afirma.

Fabíola Rinaldi, atualmente com 15 anos, começou a jogar aos 8, e sonha em jogar profissionalmente. "Meus pais me apoiam bastante, admiro muito a Marta e queria muito poder um dia jogar profissionalmente".

Um drible nas adversidades
Apesar do crescimento e de ser cada vez mais comum, ainda há quem acredite que futebol não é coisa de menina. "Eu estava na aula um dia e um professor foi convidar quem tivesse interesse para jogar futebol depois da aula, quando eu disse que queria participar ele ficou me olhando desconfiado, constrangido, acabei desistindo", conta Lia Schlickmann.

"A gente sempre escuta alguém dizendo que futebol não é coisa para meninas, dizendo coisas como 'sai daí mané macho'. Sinto que muitas pessoas têm preconceito. Respeito a opinião das pessoas, mas preconceito é ignorância", afirma Daniela de Araújo.

A atleta de São Ludgero, Sulamita dos Santos Bento, conta que já teve problemas dentro de casa por jogar futsal, o que atualmente não existe mais. "Meu marido não gostava que eu jogasse, ficava chateado quando eu saia para jogar, só que com o tempo ele foi conhecendo e se acostumando com a ideia. Hoje ele é o treinador do time em que jogo, me acompanha sempre, jogo até mais animada", explica.

Para essas meninas, o preconceito é só mais uma barreira a ser ultrapassada. "Existe preconceito sim, claro que muito menos do que antes, mas existe. Espero que isso acabe. Nós, mulheres e amantes do futebol, torcemos por isso", afirma Lia. 

*Matéria publicada em agosto de 2011, na revista Meu SUL.
* Os dados relacionados ao futsal de Braço do Norte e São Ludgero, assim como as idades das atletas citadas estão desatualizados.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O que há do outro lado?

Elizangela De Bona


A existência ou não de vida após a morte sempre gera discussão. Há os que acreditam e os que nem cogitam a hipótese. Há também os que preferem nem pensar no assunto. A verdade é que só encontraremos resposta para essa pergunta no dia em que partirmos, mas tentar entender como funcionam as coisas, inclusive a morte, é típico das pessoas.

As religiões, norteadoras de grande parte da sociedade, apontam caminhos, respondem, de acordo com a sua doutrina, a esse, e outros tantos questionamentos. Para onde as pessoas vão depois de morrer? Céu e inferno existem? Há reencarnação? O que dizem as religiões? No que elas acreditam? No que você acredita?

O que dizem as religiões?

De acordo com dados do censo demográfico realizado em 2000 pelo IBGE, 73,8% dos brasileiros se declaram católicos, 15,4% se dizem evangélicos e 1,3% espíritas. 9,5% se dividem entre os que são de outra religião, 2,1%, e os que dizem não ter religião, 7,4%.

A fim de responder alguns, dos muitos questionamentos sobre o tema, a Revista Meu SUL procurou líderes destas, que são as religiões mais conhecidas e seguidas pelas pessoas.

Para onde as pessoas vão depois de morrer? Céu e inferno existem?

De acordo com a igreja católica céu e inferno existem sim. "A bíblia é bem clara, existe um céu e um inferno. Aqueles que levarem uma vida ética, baseada nos princípios merece um prêmio. O que andou pelo caminho do vale da morte também vai receber pelo que semeou", afirma o padre Lenoir Steiner Becker. Segundo o padre, o céu não seria um lugar, seria um estado de espírito, de realização plena, uma morada espiritual junto ao pai eterno.

Para os espíritas, conforme o presidente da União Regional Espírita da 9ª Região de Santa Catarina, Walterney Rus, céu e inferno são vivenciados constantemente. "Quando nossa alma está verdadeiramente em paz, tranquila, com aquela sensação peculiar de dever cumprido, já temos um esboço de céu. Do mesmo modo, quando estamos em situações de dúvidas angustiantes, de dores atrozes, de perdas terríveis, já estamos experimentando o inferno", afirma.

De acordo com o espiritismo, no momento da morte, cada pessoa segue para um determinado grupo. "Pessoas que, encarnadas, são baderneiras, praticantes de crimes, desencarnam e agrupam-se em regiões que nominamos como umbral, onde perambulam errantes, enquanto não caem em si sobre suas condutas, quando então, por força desse arrependimento eficaz são resgatadas e encaminhadas para colônias espirituais, assemelhadas a clínicas de recuperação, casas de repouso, para fins de reestruturação de seus projetos de vida. Da mesma forma, pessoas que dedicaram suas vidas na terra ao exercício do bem, à prática das diretrizes evangélicas, ou mesmo ao amor incondicional à humanidade, ao desencarnarem são recebidas por espíritos afins, que lhes facilitam a transição e as acolhem já em residências específicas, em colônias espirituais", explica.

Conforme o pastor da igreja evangélica, Moisés Brasil Maciel, céu e inferno existem, mas ainda não o vivenciamos. "Dois locais distantes, sem comunicação um com o outro. Dois locais eternos, de sofrimento ou alegria eterna, dois destinos baseados em nossas escolhas de hoje. A forma de vida que escolhemos, em quem e no que cremos, determinará onde passaremos a eternidade. Ainda que para muitos a vida em nosso mundo se assemelhe muito a um inferno, a Bíblia declara a existência de um paraíso, local onde recomeçaremos a vida dentro dos padrões já estabelecidos por Deus, e um lugar de tormento, eternamente distante de Deus".

Existe vida após a morte?

"A vida após a morte se constituí num dos princípios elementares da Doutrina Espírita, doutrina que prega não só crença na vida após a morte, mas principalmente, que a morte é apenas um processo de transição e que a realidade espiritual interage continuamente com a realidade material, sendo perfeitamente natural tal interatividade, como é natural pessoas de países diferentes interagirem sem estarem fisicamente no mesmo lugar", declara Réus.

Para a igreja evangélica, a alma e o espírito, continuam vivos após a morte. "Entendemos que o homem é composto de corpo, alma e espírito, no corpo os órgãos do sentido e organismo em si, na alma, emoções, vontade, razão e intelecto, no espírito consciência e comunhão com Deus. Mesmo que o corpo pereça, a morte física, ainda temos algo de imaterial, a alma e o espírito, que perdurarão após a morte do corpo", afirma o pastor.

De acordo com o padre Lenoir Steiner Becker, após a morte se tem vida plena. "Após a morte partimos para a morada eterna junto a Deus Pai, vivemos uma felicidade plena".

Há reencarnação?

Para os evangélicos não. "Não há como juntar em uma mesma ideia reencarnação e cristianismo. Crer em reencarnação é rejeitar o sacrifício de Cristo, pois se cristo morreu uma única vez por nossos pecados não há como viver, morrer, tornar a viver, morrer, retornar a vida, até que sejamos purificados dos nossos delitos e erros. Não há paralelo entre ser cristão e crer em reencarnação, haveria uma contradição com a própria Bíblia: 'E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação'. (Hebreus 9:27-28). Esta segunda vez, em que Cristo aparecerá, será a sua volta, voltará, pois morreu, e ressuscitou", explica Maciel.

De acordo com os princípios católicos, a reencarnação não existe. "Parto do princípio daquilo que Jesus diz na cruz ao ladrão arrependido, 'hoje mesmo estarás comigo no paraíso'. Ele não prometeu que após o arrependimento ele fosse viver outra vida. Acreditamos na ressurreição. Não acreditamos na reencarnação, acreditamos que Deus nos dá uma chance, e é essa que temos agora. Por isso precisamos nos esforçar nesse tempo para cumprirmos a nossa missão", argumenta Becker.

Já para a doutrina espírita, a reencarnação estrutura os projetos de Deus para a humanidade. "A Doutrina Espírita não só crê na reencarnação como a defende como mola mestra de todo o projeto de Deus para o nosso progresso constante. Sem o princípio da reencarnação, fica muito difícil estruturar a justiça de Deus, posto que uma única vida para nos por à prova, com tanta diversidade de oportunidades e dificuldades seria como o professor que, para um aluno permite consulta à livros e mestres, enquanto que para o outro, além de lhe vedar consultas, ainda o obriga a fazer a prova nu sob chuva e frio intenso, exigindo de ambos a mesma nota. A reencarnação aponta ainda para duas características sem as quais Deus não seria Deus: Misericórdia, traduzida pela renovação de oportunidades para repararmos nossos erros, e, Justiça, traduzida pela íntima relação entre nossas decisões e nossa responsabilidade sobre o resultado dessas decisões. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória", explica Réus.
  
Sinais que confortam

Para algumas pessoas, a existência de vida após a morte é um fato
 
Foto: Arquivo
Natural de São Paulo, Tatiana Madjarof tinha 23 anos quando perdeu a vida em acidente de carro, no dia 4 de fevereiro de 2006. A estudante de medicina, que sonhava fazer pós-graduação nos Estados Unidos e trabalhar voluntariamente na África, ia à Laguna visitar uma amiga, porém foi surpreendida por um carro, vindo na direção contrária. O carro, que fazia uma ultrapassagem irregular, bateu de frente no carro que Tatiana dirigia e a jovem teve morte instantânea.

Sete meses após a morte de Tatiana, sua mãe, Rosana Madjarof, convidada por sua mãe e uma amiga, foi ao Centro Espírita Aurélio Agostinho, em Minas Gerais. Ao fim da reunião, recebeu das mãos do médium Celso de Almeida Afonso, a primeira carta de sua filha. "A carta era rica em detalhes, coisas que só a Tati poderia saber. Renasci naquele dia, tive certeza de que a minha filha estava viva em outro plano, e aquilo me confortou", afirma Rosana.

Hoje, são 27 cartas psicografadas pelo médium Celso. Segundo Rosana, as 27 cartas trazem conforto não apenas para ela, mas também para outras mães, que não recebem mensagem dos filhos. "Não tenho necessidade de receber mais cartas, porque sei que a minha filha vive, ela está do meu lado, mas faço questão de voltar ao centro e receber novas cartas pelas outras mães. Essas cartas servem de consolo, saber que nossos filhos continuam vivos é algo maravilhoso, por meio das cartas temos a certeza de que se continuarmos caminhando na direção do bem, cumprindo a missão que nos foi confiada, vamos nos encontrar", explica.

Foto: Arquivo
Jivago Echeli Jung, 27 anos, cirurgião dentista, natural de Orleans, perdeu a vida no dia 7 de março de 2007, após bater de frente em outro carro no Km 311 da BR-101, em Laguna. A mãe, Claudete Echeli Jung, também recebeu cartas psicografadas pelo médium Celso, e se diz agraciada. "Recebi duas cartas no mesmo dia, olhava para os lados e via várias pessoas com camisetas de filhos, e eu estava recebendo uma mensagem do meu, me senti imensamente feliz", conta.

Quer conhecer mais a história de Tatiana? Acesse: Saudade e Adeus. Lá você também poderá ler algumas cartas psicografadas, dela e de outras pessoas. O site é administrado pela Rosana Madjarof, mãe da Tatiana.

* Matéria publicada em agosto de 2011, na revista Meu SUL.